04 novembro 2010

Versões de mim

(Luiz Fernando Veríssimo)

Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.

Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste…

Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é Imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:

- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo

E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.

- Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?

- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei a seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia..

- Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele.

Olhamos para o intrometido… Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:

- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.

- Como é que você sabe?

- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me tirei… Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…

Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.

- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…

- E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.

- Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?

- Você…

- Morri com 28 anos.

- Bem que tínhamos notado sua palidez.

- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…

- E ter levado o chute na cabeça…

- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…

- Você deve estar brincando.

Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.

- Quem é você?

- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.

- Quem é você?perguntei.

- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.

- E..?

Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo…

Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você não teve, mas sim, aquilo que foi feito!

Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!

22 outubro 2010

Missão integral

Texto de Arlen Rodrigues

Uma revista Cristã abordava um tempo atrás que os males sociais são frutos do pecado, porém o pecado estrutural – má distribuição de renda, saúde publica precária, educação básica ineficiente.

Este tem sido o tema corrente na missão integral. O evangelho tem por missão oferecer uma resposta para essa sociedade em crise e construir um mundo mais justo anunciando a chegada do reino de Deus, juntamente com exercício cidadão, aliando os valores cristão sem abrir mão da nossa vocação profissional e talentos naturais.

Entretanto essa onda evangélica de triunfalismo quer resolver quase tudo somente com  oração, intercessão nas ruas mais violentas da comunidade, unção nos pontos com alto índice de prostituição e estendendo a mão na direção da sua casa. Isto é apenas uma crendice que desacredita o bom senso. Eu vejo que o chamado a fé envolve muito mais do que orar pelos perdidos, impor mão, e fazer catequese.

Eu gostei muito de uma frase que eu ouvi hoje que diz, "Ensinamos o que sabemos,e multiplicamos quem somos". Nós cristãos temos que rever o que realmente somos, fazer uma auto análise da verdade que estamos passando, e qual estamos vivenciando. A verdade das igrejas-empresas a serviço do ego e da lógica da competição dita pelo deus mercado? Ou a verdade do reino de Deus, que a lógica é a cooperação que compartilha a miséria alheia?

O serviço cristão pode ser feito sem abrir mão da carreira profissional, visão empreendedora, dos talentos, seja a lógica-matemática, artes ou serviço social voluntario, tudo pode ser colocado a disposição do reino de Deus.

Ouvia uma apresentação do pastor Kivitz quando dizia que em vez de enviar missionários para a África, seria  melhor enviar um empreendedor para desenvolver negócios, gerar receitas, empregos, médicos para cuidar dos doentes, engenheiros agrônomos para ensinar técnicas de plantio, educadores e dentistas, dessa maneira diminuiria com eficácia a pobreza do mundo.

A igreja não tem colocado em pauta os novos desafios da atualidade como a preocupação com o meio ambiente e desenvolvimento sustentável, poucos cristão atentaram que relacionar bem com o meio ambiente, consigo mesmo, com Deus e o próximo, é tão cristão que a missão de Adão no Éden era cuidar da terra.

Por isso é interessante a missão integral, Deus age através de nós em favor dessa humanidade não somente quando oramos e jejuamos, a nossa formação profissional, talentos e personalidade pode devolver aquilo que Deus tem nos confiado a essa sociedade talvez de modo mais eloqüente que meras palavras, que traz apenas uma falsa sensação de espiritualidade sadia.

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